Imagem: Tanjiro com uma máscara de raposta (não cobrindo a face, na lateral do rosto). Enquadramento padrão das resenhas do JBox.

Crítica | Demon Slayer: O surto coletivo menos divertido dos últimos anos

O hype de ‘Demon Slayer’ é alto, seu sucesso e importância na cultura pop japonesa são indiscutíveis. Mas o animê, como uma obra narrativa, deixa muito a desejar em muitos quesitos, dando a impressão de que estamos todos vivendo num novo – e nada divertido – surto coletivo.

Surtos coletivos dentro do conjunto de fãs da cultura pop japonesa costumam ser bem divertidos de acompanhar. Dois dos meus prediletos envolvem a franquia Dragon Ball. O primeiro, reaparece toda vez que o calendário anual chega no dia 11 de setembro, com uma multidão de pessoas relatando ter lembranças de assistirem um episódio de Dragon Ball Z onde o Goku se transformava em super sayajin 3 quando, por conta dos ataques às torres gêmeas nos Estados Unidos, a programação foi interrompida. O outro, mais recente, é a paixão que vários desenvolveram por Dragon Ball Super, que durou várias temporadas e arrastou uma audiência de admiradores mais novos ao lado de seguidores de anos. Bastante interessante.

Infelizmente, o atual delírio é bem menos curioso e capaz de entreter (pelos motivos corretos ou não) que outros de outrora. Me refiro à normalização da venda de mangás de luxo aqui no Brasil, em editoras grandes, para títulos que claramente pedem um tratamento mais acessível? Não. Na verdade, ele se encontra numa escala bem maior: Demon Slayer (ou Kimetsu no Yaiba, para os mais puristas).

O animê do estúdio Ufotable, exibido em 26 episódios durante a temporada de primavera japonesa em 2019, é, indiscutivelmente, um grande sucesso. A série conseguiu driblar alguns empecilhos à época, como a indicação etária para maiores de idade e o horário de exibição original na TV, às 23:30 (haviam reprises na madrugada de outros canais, mas a mesma estava disponível à qualquer hora do dia via streaming), e se tornar um fenômeno midiático, escrevendo seu nome na cultura pop nipônica contemporânea.

Isso se refletiu em vários meios. No principal deles, o mercadológico, a franquia viu os volumes de seu mangá venderem como água num dia quente, seu primeiro longa-metragem, Mugen Train, bater recordes de bilheteria mesmo em tempos de isolamento social, e a sua trilha sonora, assim como a cantora responsável por ela, LiSA, atingir o topo das vendas digitais durante o ano de 2020 e quebrar outros recordes na Oricon, principal parada musical do Japão. No social, um caso bem bacana de lembrar é o uso do Inosuke como mascote não oficial de protestos que ocorreram no Chile em 2019. Ou seja, Demon Slayer já é apropriado e ressignificado em outros contextos, coisa que tende a acontecer com praticamente toda obra que cai no gosto popular.

Imagem: Tanjiro Kamado carregando Nezuko.
O desespero de Tanjirou para salvar sua irmã de se tornar um oni… | Reprodução: Crunchyroll

A história se passa em algum momento da era Taisho (que vai entre os anos 1912 e 1926), período onde o Japão vivia uma turbulência política dada pelos conflitos com a China, o crescimento da industrialização e um começo de “ocidentalização” dos costumes a partir de influências externas. Era comum então que grandes centros fossem bem tecnológicos (pros padrões da época) enquanto locais mais afastados fossem bastante tradicionais.

Nessa, um garoto chamado Tanjirou Kamado, que mora com sua família em uma montanha longe de vilarejos, tem sua família atacada por um oni, criatura que, na mitologia da série, se alimenta de humanos e não pode ser exposta ao sol, ou será reduzida a cinzas. A única a sobreviver é sua irmã mais nova, Nezuko.

Porém, por ter sido ferida pelo oni, ela é também é transformada numa besta com fome de carne humana. Mas há esperança para a menina, pois um caçador de onis sela sua boca com um bambu e ordena que Tanjirou jamais deixe ela se alimentar. Tanjirou, então, decide também se tornar um caçador de onis. Assim, ele terá mais contato com esse universo sombrio e, quem sabe, poderá encontrar uma maneira de curar sua irmã. Então, temos o animê.

Particularmente, creio que um dos motivos para seu enorme sucesso pode ser a escassez atual de séries japonesas de ação que, de fato, tenham suas raízes dentro da mitologia nipônica e a usem como fio principal de suas narrativas. Em outros segmentos, tramas que tratam desse folclore são mais comuns a cada temporada (Yo-kai Watch, para citar um exemplo humorístico também com alcance global), mas em produtos shonen, muitos dos outros que têm atingido projeção interna e internacional retratam temas adaptados de outros locais, como Attack on Titan, My Hero Academia, Black Clover, Re:Zero, além do onipresente One Piece – e a lista segue. Desde BleachNaruto anos atrás, não surgia um mangá/animê de ação shonen tão intimamente ligado ao mítico japonês quanto Kimetsu no Yaiba. Ao menos não com tanto remate.

Porque o animê em si é ruim. Bem ruim.

Imagem: Nezuko num cesto.
Nezuko com sua mordaça de bambu… | Reprodução: Crunchyroll

Não sei se por escolha estilística da direção ou por falta de orçamento do estúdio, mas a produção faz escolhas estéticas bem esquisitas. Praticamente todos os cenários de fundo são “rústicos”, parecendo montados às pressas com algum CGI mal refinado, quase sem detalhes. Feio de olhar mesmo. Fica ainda mais desconfortável de ver quando comparamos com os personagens, feitos em 2D, mas com uma paleta de cores muito mais vibrante que todo o resto ao redor. É como se fossem duas obras audiovisuais dividindo a mesma tela, não casa corretamente.

Há ainda uma repetição desnecessária de cenas do final do capítulo anterior no início dos que vêm em seguida, dando a impressão de que não havia material o suficiente para preencher a quantidade toda de tempo que cada episódio necessitaria. Assistindo em binge-watching, acaba sendo uma experiência ligeiramente estressante.

Essas aí são questões que podem ser colocadas nas costas da adaptação, comigo não gostando de decisões técnicas que foram tomadas em sua confecção. Mas os problemas vão ainda mais a fundo quando consideramos mesmo o material original.

A premissa é interessantíssima e as possibilidades envolvendo esse universo são muitas, mas é tudo bem pouco explorado. As lutas, além de mal animadas, não são nem um pouco criativas no que diz respeito ao uso dos poderes. É quase sempre o protagonista (ou os coadjuvantes terríveis, já chego neles) sacando a espada da maneira mais óbvia e atacando com algum tipo de energia.

Poderiam usar ângulos diferentes, aprontar tomadas mais criativas, colocar todos em dificuldades que exigiriam mais de todos. Mas nada disso ocorre. Os segmentos de ação começam e terminam sem despertar qualquer tipo de empolgação, pois é óbvio o que irá acontecer no final e, pior, como isso irá acontecer.

Imagem: Zenitsu acabado.
Zenitsu. Ele se comunica gritando. | Reprodução: Crunchyroll

Enquanto o Tanjirou, por ser protagonista, tem um pouco de desenvolvimento, com o roteiro dando a entender sua dor e as nuances em sua personalidade quando ele é colocado a opinar contra discursos mais inflamados de seus pares (afinal, ele é um caçador de onis que anda com uma oni nas costas), todo o resto do elenco é formado por personagens estereotipados quase que unidimensionais.

Em dado arco, dois coadjuvantes importantes são inseridos: Zenitsu, um covardão que não para de chorar, mas guarda um poder oculto; e o já citado Inozuke, que foi criado numa floresta, usa uma cabeça de javali como máscara e arruma briga com tudo e todos.

A dualidade deles em meio à figura mais conciliadora do Tanjirou daria um prato cheio prum bom roteirista. Aqui, no entanto, temos dois personagens que podem ser opostos em ideais, mas são idênticos em execução. Os dois gritam o tempo todo (não estou brincando, o trabalho de voz neles beira ao ensurdecedor), os dois são extremamente agressivos e inconsequentes a seus modos, os dois têm desenvolvimentos iniciais rasos como um pires.

Quando outros espadachins, de uma casta superior dentro do ecossistema de caçadores, os hashiras, são introduzidos, a falta de criatividade para personalidades fica ainda mais evidente. Todos são arquétipos de personagens já utilizados em outras obras, além de alguns se repetirem entre si.

O Kyoujurou Rengoku (que representa o fogo) e o Sanemi Shinazugawa (que representa o vento) são praticamente idênticos ao que parece ser o Genya Shinazugawa (um dos rapazes que fez o teste junto com o Tanjirou e o Zenitsu no início) nisso de personalidade explosiva, um pé na vilania psicopata e timbre vocal gutural.

Imagem: Inosuke fazendo ginástica.
Inosuke. Ele também se comunica gritando. | Reprodução: Crunchyroll

Com isso tudo em pauta, fica até difícil destacar o que de bom pode ser retirado de Demon Slayer como um animê. Os character designs são bons, com os personagens de maior destaque tendo aparências bem distintas e replicáveis em outros contextos; os momentos onde o roteiro precisa sair do preto no branco para que ocorram discussões menos óbvias, como todo o segmento em que o Tanjirou vai, pela primeira vez, para uma cidade grande e se assusta com a vida cosmopolita, ou ele precisar se despir de preconceitos para trabalhar com onis que não são exatamente máquinas assassinas de humanos, exercitando assim seu lado político, são bacanas de ver; e a mitologia interna da série, com a criação dos onis vinda de um ponto em específico e isso já sendo mostrado logo de cara, é bem instigante. Contudo, quase tudo isso é estragado pelos problemas já citados, então não valem de muita coisa no fim das contas.

Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba é interessante em suas ideias, é impressionante como movimento cultural dentro do mundo pop japonês, mas é péssimo como animê. Assistí-lo é dificílimo, irritante e, acima de tudo, não é nada divertido. Dos surtos coletivos dentro do nicho otaku nos últimos tempos, é o mais chato de todos.

Mas já sei que sou minoria nisso, então, se quiser conferir por si só, dê uma olhada nos episódios com áudio original e legendas em português na Crunchyroll e também com dublagem brasileira pelo estúdio Universal Cinergia na Netflix ou na Funimation.


O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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