Imagem: Cenas de animês pré-indicados a algum Oscar ao fundo e a Chihiro segurando seu prêmio.

Por que é difícil animês serem indicados ao Oscar? | Artigo

Quando há mais pedras no caminho além do preconceito.

Na segunda-feira (07) noticiamos que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas revelou sua lista de filmes selecionados para uma potencial indicação ao Oscar de Melhor Animação. Entre os 26 títulos, 6 são japoneses, 1 é francês adaptando um mangá e 1 é brasileiro (isso não tem relação com o texto, só para salientar mesmo).

Ainda faltam 2 meses até sabermos se algum animê será indicado. Porém, o caminho até lá não será fácil. E não, o que pesa na hora da decisão não é o tão famoso “preconceito com desenhos de olhos grandes”.

Muitos fatores influenciam na hora da decisão final. Não podemos bater o martelo e dizer quais realmente dificultam a vida das animações. Também não pretendemos fazer um retrospecto da categoria desde sua criação em 2002. O nosso único intuito é mostrar outros motivos que fazem as animações japonesas ficarem tão ofuscadas na premiação.

Votação

Imagem: Foto de estatueta do Oscar.

Todos os membros da Academia podem votar na categoria de Melhor Animação. Mas sabia que eles não são obrigados a ver todos os filmes? Por ser uma premiação longa, os votantes precisam otimizar seu tempo e escolher quais filmes assistir. Então, por que não pegar uma categoria “menor” e votar de forma segura?

Este tipo de pensamento acabou criando o Fator Disney/Pixar. Ou seja, aqueles filmes que todos vão assistir com os filhos/sobrinhos/netos. Não podemos desmerecer o trabalho da Pixar, que em sua maioria é fenomenal, mas há de convir que Carros estava longe de ser uma boa escolha. E isso não se aplica apenas aos filmes da casa do Mickey. A Caminho da Lua e O Poderoso Chefinho são exemplos de que as escolhas foram feitas dessa maneira. Muitas vezes é mais fácil ir naquele que as crianças gostaram mais.

Campanha

Imagem: Personagens estendendo o braço esquerdo, como se quisessem pegar algo.

Na década de 1990, Harvey Weinstein (sim, aquele Weinstein) revolucionou a forma de se fazer campanha no Oscar. Gastando milhões, o produtor foi capaz de conseguir vitórias que ninguém é capaz de aceitar até hoje. Shakespeare Apaixonado ganhando no Lugar de O Resgate do Soldado Ryan como Melhor Filme – e nem me façam falar de Fernanda Montenegro perdendo o de Melhor Atriz – escancara como o marketing agressivo é tão decisivo quanto a qualidade do filme. O produtor fez escola, e muitas produtoras começaram a investir pesadamente em suas campanhas.

Uma das táticas mais usadas sempre foi a campanha de recordação. As empresas costumavam mandar cópias de seus filmes para os membros, para que eles pudessem ver filmes que não tiveram tanta projeção ou que saíram no início do ano. A tática começou na década de 1970, com os VHS, mas se tornou mais popular com o surgimento do DVD e do blu-ray.

Só a nível de comparação, Crash: No Limite (também vencedor do Melhor Filme) teve 130.000 cópias de DVD distribuídas. É difícil imaginar uma distribuidora que se arriscaria a pagar ao menos metade disso, quando poderia investir em mais projetos. Uma boa notícia é que a partir do próximo ano, o Oscar não aceitará mais mídia física e todos os filmes deverão ser adicionados ao seu próprio serviço de streaming. A campanha visa ajudar ao meio-ambiente, mas pode ajudar companhias menores a ganharem mais atenção.

Outra tática é a projeção: quanto mais salas, mais público. Mas animê é algo de nicho, por mais que doa aceitar isso e quase não têm visibilidade. Assim como no Brasil, muitos filmes têm lançamentos limitados, o que dificulta se ouvir falar dele, a menos que tenha uma distribuidora grande por trás, como a Disney lançando os filmes do Ghibli, por exemplo.

Continuidade

Imagem: Rosto de Rengoku e Tanjiro dividido pela espada de fogo de Rengoku, em capa da revista japonesa 'Men's Nonno'.

Na última edição, o filme de Demon Slayer esteve entre os pré-selecionados. Recorde de bilheteria, o filme acabou não chegando na premiação. Independente de sua qualidade e de seu sucesso, quero propor um exercício.

Imagine que você é um membro da Academia que não assiste animês. Lendo a lista das animações, você se depara com um filme de caçadores de demônios num trem. E você descobre que o filme é continuação de um animê com mais de 20 episódios. Lembrando que você não é obrigado a assistir a todos os filmes, você se daria o trabalho de parar tudo pra ver uma série e enfim ver um filme?

Barreira linguística

Imagem: Personagens de 'Sore ga Seiyuu' dublando.

Uma das coisas mais democráticas que existe é a dublagem. Ela permite que qualquer pessoa tenha acesso ao conteúdo apresentado, independente de quem ela seja. E há dublagens tão boas que não concebemos nem a ideia de assistir determinado filme ou série em seu idioma original.

Mas o mesmo não se aplica na hora de uma votação importante como a da Academia. Por melhor que a dublagem seja, ela é apenas uma adaptação do texto original, feita para se adequar aos movimentos labiais, ao contexto do país em que está sendo dublado, etc. Parte do original se perde, é inevitável. E para se ter uma experiência mais próxima ao original, se recorre a assistir ao filme em sua língua original, seja ela qual for.

Nem todos sabem uma segunda língua, então é preciso recorrer às boas e velhas legendas. E parafraseando Jane Austen: É uma verdade universalmente conhecida que americanos não gostam de ler. Isso não se aplica apenas aos filmes animados no Japão.

De 93 edições, apenas 13 filmes em outros idiomas concorreram na categoria principal, motivo pelo qual Parasita pegou o mundo de surpresa com sua vitória. Por aí se tem uma ideia de como filmes estrangeiros são vistos por lá.

Preconceito com animações

Imagem: Chihiro e o dragão.

Lembra no início, quando falei sobre o preconceito com desenhos japoneses que tanto apregoam por aí? E se eu disser que há sim, mas com qualquer desenho? Desenhos sempre foram vistos como entretenimento infantil. Não por acaso, sempre vemos casos por aí de animações com temas mais pesados ou sensíveis sendo alvos de críticas porque crianças os assistem – mesmo não devendo. Isso não é exclusivo aqui da terra do brigadeiro.

Isso ficou claro em 2020, quando Homem-Aranha no Aranhaverso ganhou a estatueta de Melhor Animação, desbancando Mirai e Ilha dos Cachorros, além de dois filmes da Disney/Pixar. Não que o filme seja adulto, longe disso. O problema veio antes, quando Pharrell Williams e Michelle Yeoh sobem ao palco. Antes de anunciar os indicados, a dupla começa citando a passagem bíblica de I Coríntios 13:11:

Quando menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que me cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.

Logo depois, eles falam sobre como as animações os transportam para tempos mais simples; como a época da infância, onde há mais imaginação e coragem. Sim, na mesma categoria que já indicou Persépolis e Anomalisa.


Estes foram alguns pontos importantes para se entender o panorama das animações japonesas na premiação. Há preconceito? Talvez, visto o tanto que eles precisam mudar os desenhos para se adequarem ao país deles.

Mas isso não impediu que A Viagem de Chihiro conseguisse o prêmio. Claro, ainda estávamos no início – Chihiro foi apenas o segundo filme a ganhar na categoria – e muito do pensamento atual ainda estava se formando. E como mencionado anteriormente, o fato de ser distribuído pela Disney ajudou bastante na sua projeção, ao ponto de desbancar dois filmes da mesma.

Seja como for, fato é que todos torcemos por mais um reconhecimento às animações japonesas. E da brasileira também, afinal não custa nada torcer, certo?


O texto presente nesse artigo é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

Publicidade
close