Imagem: Personagem de Shirobako com olheiras em ambiente de trabalho (produzindo uma animação), dentro de enquadramentos de artigo do JBox.

Terceirização na indústria de animês é sempre ruim? | Artigo/Convidado

Terceirização é uma prática comum na indústria de animação japonesa, e nem sempre negativa. Entenda melhor como os estúdios se organizam para atender aos prazos e quando é que isso vira um problema.

A produção de um animê é um processo naturalmente muito exigente, tanto em relação a mão de obra quanto ao tempo necessário, dado que muitas dessas produções geralmente operam em cima de cronogramas bem apertados, além de demais fatores, torna-se inviável ou até impossível que alguns estúdios consigam entregar um produto final que tenha sido totalmente produzido dentro desse próprio estúdio.

Assim, dada a inflexibilidade de produtoras em relação a oferecerem melhores cronogramas para suas produções, gera-se uma necessidade pela chamada terceirização ou outsourcing – seja ela parcial ou completa – de alguns segmentos da produção de um animê.


Ao contrário do que muitos podem assumir quando se fala a respeito desse assunto, terceirização em animês não necessariamente significa algo negativo para uma produção, uma vez que a necessidade de se terceirizar segmentos de um projeto para demais “estúdios de suporte” é algo que sempre fez parte da realidade da indústria de animação japonesa, tornando-se atualmente um recurso essencial para muitos estúdios. Assim, a influência negativa que a prática de terceirização pode exercer sobre uma produção dependerá do contexto.

Um animê não é produzido inteiramente por apenas um único estúdio, uma vez que o estúdio principal por trás de uma produção – listado nos créditos pela produção de animação (アニメーション制作 ou animation seisaku) – é normalmente acompanhado de várias outras empresas auxiliando não só com o processo de animação, como também em diversos outros segmentos de uma produção.

Isso ocorre pois nem todo estúdio simplesmente tem animadores o suficiente à disposição para lidar com o processo de animação de um animê por completo; ou mesmo não possui equipes/departamentos especializados em demais segmentos essenciais de uma produção além da animação, normalmente recorrendo à contratação de estúdios especializados nesses segmentos, como a criação de cenários (backgrounds), coloração, fotografia, desenvolvimento e implementação de 3DCGI e efeitos visuais (VFX), dentre outras componentes do produto final.

Imagem: Créditos na sequência de abertura de Nagatoro.
Estúdios Dogwood e “Studio Lings” (スタジオリングス), ambos creditados por animação-chave secundária (第二原画) em Don’t Toy with Me, Miss Nagatoro. | Reprodução.

A Terceirização e a Cooperação de Produção

Com o intuito de aliviar a carga de trabalho e a pressão em cima da equipe principal de um anime, normalmente observamos a prática de subcontratação de animadores provenientes de outros estúdios para auxiliar na animação de algumas cenas, seja trabalhando com animação-chave (原画 ou genga), in-between (動画 ou douga), animação-chave secundária (第二原画 ou daini genga) ou até mesmo como um diretor de animação (作画監督 ou sakuga kantoku) em certos casos – ou como mencionado anteriormente, contratando estúdios especializados produzir componentes da produção os quais o estúdio principal não tem especialização para realizar “em casa” (in-house), o que nesse caso é algo completamente compreensível.

O caso citado acima seria um exemplo de terceirização parcial, na qual o estúdio principal irá entregar parte do trabalho para outras empresas, com o intuito de diminuir a pressão em cima da equipe principal. Normalmente, se vê o nome dessas demais empresas ao longo dos créditos de animação dos episódios.

Imagem: Créditos na abertura de Jujutsu.
Animadores dos estúdios SILVER LINK, Lay-duce, OLM, Shuka (朱夏) e P.A WORKS creditados por realizar in-betweening (動画) em Jujutsu Kaisen. Essas empresas foram contratadas pelo estúdio MAPPA para auxiliar no processo de animação da série. | Reprodução.

Porém, em algumas situações – ou para alguns tipos de produção –, apenas terceirizar parte do trabalho não é o suficiente para atender aos prazos impostos pelos cronogramas da produção, assim poderá ser necessário que grande parte de alguns episódios ou até mesmo episódios inteiros sejam terceirizados/produzidos por outras empresas.

Nesses casos em que existe a necessidade de uma terceirização considerável, se não total da produção de um episódio, os estúdios envolvidos são geralmente listados ao final dos créditos por assistência de produção ou cooperação de produção (制作協力 ou Seisaku Kyōryoku).

Conhecido por suas produções longas e ininterruptas, como Boruto: Naruto Next Generations e Black Clover; o estúdio Pierrot (ぴえろ) é completamente dependente de rotações de terceirização total em seus animês de longa-produção, especialmente devido a esse tipo específico de produção.

Imagem: Créditos em abertura de Black Clover.
Estúdio Mouse (マウス) creditado pela cooperação de produção (制作協力) em um dos episódios de Black Clover. O estúdio Mouse é uma das empresas que regularmente faz parte das rotações de terceirização para os animes de longa-produção produzidos pelo estúdio Pierrot ( ぴえろ). | Reprodução.

Uma faca de dois gumes

Mesmo com a prática de subcontratação sendo algo comum na indústria e um recurso essencial para muitas produções atualmente, a terceirização tem seu lado negativo, podendo trazer consequências que contrariam o intuito por trás da prática.

Geralmente, ao terceirizar o trabalho de animação para outras empresas, o principal intuito que o estúdio principal tem é diminuir a carga de trabalho em cima da equipe principal de um projeto. Mas caso não haja coordenação adequada entre os assistentes de produção (制作進行 ou seisaku shinkou) do estúdio principal e as várias empresas subcontratadas auxiliando na produção de um animê, a realidade pode ser bem diferente: uma linha de produção desorganizada pode facilmente gerar uma bagunça capaz de trazer ainda mais problemas para a atarefada equipe por trás desse anime.

Suponha que algumas cenas foram entregues para serem animadas por terceirizados, mas os resultados entregues não correspondem ao que era desejado pela equipe principal — seja por uma comunicação precária entre a equipe e as empresas ou simplesmente pela qualidade ruim do serviço prestado pelos terceirizados —, essas cenas muito provavelmente teriam que ser retrabalhadas pela equipe principal. E isso seria extremamente contra produtivo, não?!

Qual o propósito de dividir a carga de trabalho com terceiros se o resultado entregue por eles terá que ser retrabalhado pelos animadores da equipe principal no fim das contas? Situações iguais já ocorreram em produções como So I’m a Spider, So What? e Banana Fish, onde as equipes passaram por complicações devido a má terceirização. Coordenação! Esse é um dos principais desafios enfrentados por estúdios que recorrerem a terceirização.

É devido a essa demanda logística e suas possíveis consequências, assim como com as despesas de terceirizar, que alguns estúdios optam por não depender de terceiros quando se trata da sua animação-chave. A utilização de terceiros não só é processo que demanda capacidade de comunicação e coordenação entre as empresas, mas também é processo custoso. Ao contrário do que muitos podem imaginar, essa “mão de obra” adicional não é nada barata.

Supostamente, uma produção completamente terceirizada sai bem mais cara do que uma produção feita completamente por um único estúdio [principal]. Infelizmente, devido ao estado da indústria de animação japonesa atualmente, produções completamente internas são simplesmente inviáveis até para os estúdios mais capacitados. A terceirização se torna assim um recurso fundamental para uma indústria inflada de novos projetos em desenvolvimento constante e cronogramas cada vez mais apertados.

Apenas um estúdio é conhecido por produzir todos os seus animês totalmente in-house, lidando com todas as etapas das suas produção sem nenhuma utilização de terceiros. Essa é a Kyoto Animation (京都アニメーション), responsável por séries como Miss Kobayashi’s Dragon Maid e Violet Evergarden. Um estúdio que realiza todas as etapas da produção de seus animês da própria empresa, desde o processo de animação, a criação de cenários, até o trabalho de fotografia e 3DCGI. Tudo é produzido internamente. Isso é graças não só aos cronogramas altamente saudáveis de suas produções, como também dos eficientes programas de treinamento para novos talentos oferecidos pela empresa.

Imagem: Pôster da segunda temporada de Maid Dragon.
Divulgação: KyoAni.

Alguns estúdios, como o BONES (ボンズ) – responsável por séries recentes como My Hero Academia, Sk8 the Infinity e The Case Study of Vanitas –, buscam alternativas para recorrer o mínimo possível da assistência de terceiros com a produção de layouts (レイアウト) – também denominado como a animação-chave primária – para suas produções.

No caso, o estúdio BONES opta por repartir a carga de trabalho de suas várias produções entre os cinco sub-estúdios que compõem a empresa. Assim mantendo todo o trabalho “sob o mesmo teto”, onde teoricamente se torna mais fácil de se coordenar toda a divisão de trabalho.

Imagem: Créditos em abertura de My Hero Academia.
Estúdios MASSKET e Revival (リバイバル) creditados pela animação-chave no episódio #109 da quinta temporada de My Hero Academia. Normalmente apenas as etapas de in-betweening e a segunda animação-chave utilizam do auxílio de terceiros, dado que o estúdio BONES opta por produzir a animação-chave primária (layouts) dentro do próprio estúdio.

Mas mesmo assim, complicações ainda podem ocorrer como foi o caso de Sk8 the Infinity que veio sofrer de sérios problemas em sua produção, necessitando de apoio emergencial dos demais sub-estúdios, algo que repercutiu negativamente e gerou um efeito dominó, aumentando problemas de produção em The Case Study of Vanitas e ao final da quinta temporada de My Hero Academia; com ambos necessitando que parte de sua animação-chave fosse terceirizado para o estúdio MASSKET — como é possível se observar na imagem acima.

Considerações Finais

Como mencionado anteriormente, a prática de terceirização se tornou uma parte essencial da indústria atualmente, até mesmo os estúdios mais capacitados podem necessitar de auxílio eventualmente. Uma ‘ferramenta’ que pode ser tanto benéfica quanto maléfica para uma produção.

Espero ter sido claro sobre esse assunto e ajudado vocês a entender um pouco mais a respeito de como funciona o processo de terceirização dentro da indústria de animação japonesa; com intuito de esclarecer essa possível visão equivocada que público pode ter sobre essa indústria, de que um animê é produzido inteiramente por apenas único estúdio, além de também desmistificar o pensamento de que a existência de terceirização em um animê é necessariamente indicativo de algo negativo. Espero que tenham gostado!

Sintam-se à vontade para visitar a página da Sakuga Brasil para informações, notícias, análises e todo tipo de curiosidades sobre a indústria de animês!


Este artigo foi produzido por Tonatiú da Sakuga Brasil, site especializado na indústria de animação japonesa, a convite do JBox. Confira também o artigo sobre o que é sakuga aqui.

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