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Cobertura: O processo de criação do Studio Ghibli

 

No último domingo (04/06) aconteceu em São Paulo, na “recém”-inaugurada Japan House, a primeira palestra do local. O espaço cultural tinha prometido atrações de diversas áreas do Japão e realmente começou em grande estilo, trazendo o produtor Takayuki Aoki do “quase nada” conhecido Studio Ghibli.

Quando chegamos lá, o que encontramos foi nada mais, nada menos que uma multidão de gente, tanto que só conseguimos entrar na segunda sessão do dia, marcada de última hora pela própria vontade de Aoki. A própria organização da Japan House nos informou que não esperava nem 10% do público que compareceu ao evento.

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Mas falemos da palestra. Takayuki foi divertido durante toda a apresentação. Na segunda sessão falou que estava mais relaxado e poderia se soltar mais. O produtor de 32 anos de idade, ao se apresentar, comentou que até pouco tempo atrás era o funcionário mais novo do estúdio e que não era nem mesmo a melhor pessoa para comentar sobre a parte de produção artística. Mesmo assim, ele se propôs a falar sobre o processo de criação de filmes do Ghibli e também sobre seu trabalho de representar as estruturas arquitetônicas usadas no filme em enormes maquetes 3D (ele comentou até mesmo sobre uma que era altura da sala de seminários em que estávamos).

Aoki iniciou tecendo comentários sobre a história do estúdio e a importância de seu trabalho. Mostrou algumas fotos do local físico, como o próprio prédio, o terraço e até mesmo a mesa de Hayao Miyazaki, que é uma total bagunça! A partir disso, começou a falar sobre o processo de criação dos filmes. Citou a importância das fases de direção, animação, colorização, filmagem, etc., todas feitas dentro do próprio estúdio. Segundo ele, a produção desses filmes costuma levar de 2 a 3 anos, com exceção de O Conto da Princesa Kaguya, que levou oito anos para ser feito. Ainda sobre Kaguya, Aoki questionou o público para testar se alguém acertava a quantidade de folhas desenhadas que um filme levaria. Os chutes ficaram por volta de 15 mil, mas a surpresa veio quanto Takayuki comentou que um filme de duas horas do Ghibli tinha pelo menos 100 mil quadros desenhados, mas Kaguya novamente foi uma exceção, com um total de 500 mil desenhos.

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O Conto da Princesa Kaguya, último longa do estúdio dirigido por Isao Takahata

Ele decidiu exemplificar o processo de produção usando cenas do filme As Memórias de Marnie, tanto que até mesmo convidou uma garota da plateia para encenar uma árvore, mostrando como funciona o processo de animação durante o layout. Nessa parte ele também fez questão de mostrar a criação do desenho de personagens e como funciona o imageboard, que seria algo semelhante ao roteiro, só que para a parte visual do filme, visando a maior atenção aos detalhes do espaço físico e personagens dos longas.

Para exemplificar de forma bem simples o processo de animação, o produtor usou uma cena do filme O Castelo Animado, na qual primeiro continha apenas os animação com os quadros chaves, seguido da animação com os quadros intermediários, e então a colorização, o background e por fim com detalhes adicionais do layout. Ele fez questão de mostrar o pequeno trecho de quatro segundos para cada fase da animação de forma bem didática, sempre perguntando se os espectadores estavam entendendo e que podiam perguntar se tivessem alguma dúvida.

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O Castelo Animado, Hayao Miyzaki. 2004

Após falar que agora todos nós já éramos mestres da animação, Aoki começou a investir comentários no segundo tema da palestra: a arquitetura dos filmes do Studio Ghibli. Nessa hora ele se soltou completamente, até porque estava comentando sobre a área principal de seu trabalho. Ele primeiro falou que se surpreendeu ao chegar no Brasil e ver que a arquitetura é mais voltada ao 3D do que aos aspectos 2D, por causa de Oscar Niemeyer e que teve o prazer de conhecer mais sobre a obra do arquiteto brasileiro.

Ele aproveitou a deixa da exposição Bambu – Histórias de Um Japão que está acontecendo na Japan House para comentar sobre a importância dos bambus na arquitetura japonesa e sua associação com o conceito de beleza que o Japão tem. Ele começou a “brisar” um pouco sobre o nascimento de Kaguya e por que ela escolheu o bambu como local de seu nascimento. A justificativa, ou ao menos uma das teorias que justifica, é que o bambu além de sua forma totalmente ereta, importante para formações arquitetônicas, reflete a luz, o que está intrinsecamente ligado com a visão de beleza do Japão, que é a de admirar a beleza através de outra coisa. Para detalhar sobre a afirmação, ele falou da Vila Imperial de Katsura, que tem uma plataforma feita de bambu que, à noite, reflete a luz da lua, permitindo a contemplação através desta. Isso também está presente até mesmo nos kimonos japoneses, que tem o forro de dentro muito mais ornamentado que a parte de fora. É uma questão de admirar o que está escondido ou não visto de forma direta.

katsuraApós as explicações, Aoki citou o arquiteto Terunobu Fujimori e falou sobre sua relação com o Ghibli. Terunobu é conhecido por seus trabalhos que beiram a fantasia, como sua casa de chá suspensa como se fosse uma enorme rede. Aoki falou que o Ghibli cria várias estruturas fantasiosas, mas que são plausíveis de serem recriadas na realidade, graças à uma importância com os detalhes que o estúdio tem. Ele falou que até mesmo o Castelo Animado seria possível de se recriar na vida real, graças aos suportes e vigas que foram desenhados na criação do mesmo. Aoki só comentou que o castelo não poderia se movimentar e que também, obviamente, seria caro demais.

O foco continuou no Castelo Animado de Miyazaki quando entramos na outra grande característica da arquitetura do Ghibli: a mistura de várias partes. Aoki pediu para darmos atenção às várias formas estruturais diferentes que a grande formação tinha, unindo o modelo de arquitetura japonesa com as ocidentais. Ele comentou que isso também está presente na casa de banho de A Viagem de Chihiro e na casa da família Kusakabe em Meu Amigo Totoro. Esse instinto de união no Japão acontece devido ao país ser um ilha, o que faz com que exista um grande senso de companheirismo por lá. Essa é uma das tradições japonesa que os filmes do Ghibli tentam repassar através dos seus mundos de fantasia.

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Por fim, mesclando os dois temas da palestra, Aoki comentou sobre dois causos: o primeiro foi quando Miyazaki comentou sobre a importância do tato no seu processo criativo. O diretor das infinitas aposentadorias falou que além dos outros sentidos, tocar as coisas é muito importante para sua criação e que assim ele tem maior facilidade em lembrar dos detalhes ao repassar as coisas para os filmes. Miyazaki também comentou para Takayuki que toda a sua inspiração sempre está à três metros ao seu redor e usou de exemplo o microfone que tinha em mãos. Ele disse que poderia se inspirar em algo como “Como esse microfone funciona? Por que eu uso esse microfone para falar com vocês?” e que isso é importante para se pensar durante o processo de criação, já que está associado com a questão de “pensar no que está interno”, associado com a beleza estética japonesa. O segundo causo que Aoki comentou aconteceu entre os diretores Isao Takahata e Hayao Miyazaki. Quando o segundo era mais jovem, perguntou se deveria tirar fotos durante uma pesquisa de campo para a produção, mas Takahata disse “nunca tire fotos, faça um sketch. Ele disse que desenhar é mais importante para o processo de criação porque estimula a imaginação e não simplesmente entrega um retrato da realidade nos filmes, possibilitando o magnífico mundo de fantasia do Ghibli.

Depois disso, Takayuki finalizou a palestra respondendo algumas perguntas sobre a diferença do filme Túmulo dos Vagalumes para outros títulos do estúdio, afirmação da qual ele discordou. Também comentou sobre a visão do Brasil lá no Japão, mas quando respondeu acabou caindo no clichê do futebol, samba e mulheres bonitas, no entanto ele se surpreendeu ao chegar aqui e ver o quanto São Paulo tinha a oferecer, principalmente pela parte artística e arquitetônica.

Conclusão

A palestra de Takayuki Aoki na Japan House foi uma experiência realmente incrível. Apesar dos contratempos que tivemos para conseguir assisti-la, no final valeu bastante a pena. O produtor mostrou que seu trabalho está bastante ligado ao estúdio, já que além de explanar a parte técnica, fez questão de discutir com o público a importância da parte sensorial e até mesmo filosófica que ronda toda a história do estúdio.

Apesar de jovem, Aoki mostrou ter um contato sincero com o estúdio, o que esperávamos ver de alguém de lá, e se mostrou muito feliz com a grande demanda de pessoas que compareceu à Japan House nesse domingo, se mostrando otimista para a presença de mais palestras e até mesmo exposições do Studio Ghibli por aqui no futuro.

No fim, só podemos agradecer a disponibilidade de Takayuki pelas apresentações e que isso seja sinal que teremos muito mais coisas ao decorrer dos próximos meses e anos aqui no Brasil. Também agradecemos a Japan House e, com o grande público dessa vez, esperamos que numa próxima apresentação relacionada tenhamos uma dedicação ainda maior de espaço e tempo para os ouvintes.

Teke

Perdido na cultura pop e estudando Letras querendo seguir o ramo editorial. Amaldiçoando o dia que aquele japa me mostrou um VHS de uns desenhos com olhos grandes acompanhado de um gibi preto e branco.

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