Imagem: Yuji Itadori e o menino que usa venda nos olhos em 'Jujutsu Kaisen'. Enquadramento indicando ser uma resenha.

Crítica | Jujutsu Kaisen (1ª temporada)

‘Jujutsu Kaisen’ é o PF mais gostoso do cardápio de shounens de ação na atualidade.

Macarrão com salsicha é um grande prato do cardápio brasileiro no dia a dia. É fácil, qualquer um consegue fazer sem muitos problemas. É só colocar o macarrão para ferver durante o tempo exigido na embalagem, fazer o mesmo com a salsicha, colocar no molho o tempero pronto industrializado à sua preferência e comer. Enche, é satisfatório, dá para consumir uma vez por semana sem enjoar.

Mas também dá para enfeitar, deixar mais gourmet. O macarrão pode ser cozido um pouco menos do que o tempo sugerido na embalagem para ficar al dente. O molho pode ser feito com a própria água do cozimento da massa, juntando o amido que ela solta para ficar mais consistente. Adicionar manjericão, pimenta do reino e demais especiarias. No fim, ralar um queijo na hora de servir para que ele derreta enquanto o prato é consumido. Ainda é macarrão com salsicha, mas um tiquinho mais trabalhado.

Shounens de ação são o macarrão com salsicha do mundo dos animês. Tem vários por temporada, eles costumam ser bem semelhantes, com pequenas variações que agradam seus admiradores e comumente compartilham o fato de serem de fácil digestão ao grande público. E como os PFs, tem vezes que alguns são feitos de maneira tão caprichada que acabam se destacando da multidão.

É o caso de Jujutsu Kaisen, que foi ao ar no Japão da última temporada de outono à mais recente temporada de inverno, com 24 episódios feitos pelo estúdio Mappa, dirigidos por Park Seong-Hu, que foram transmitidos simultaneamente ao Japão aqui no Brasil pela Crunchyroll à época e ainda vêm sendo exibidos semanalmente na plataforma com dublagem em português pelo estúdio Som de Vera Cruz.

Imagem: O protagonista Yuji Itadori.
Reprodução: Crunchyroll

O animê adapta o mangá de mesmo nome do Gege Akutami, lançado nacionalmente pela editora Panini, que sai no Japão na revista Shonen Jump, da editora Shueisha, desde 2018. Com o sucesso da série animada, o gibi vem aumentando gradativamente em vendas, tendo chegado recentemente a 45 milhões de cópias em circulação. Sucesso esse que é muito merecido, pois o trabalho do Mappa para com a obra é impressionante.

Na trama, um moleque chamado Yuji Itadori, membro de um clube de ocultismo em sua escola, engole um dedo de um famoso espírito amaldiçoado, o lendário Ryoumen Sukuna, e se transforma num hospedeiro para seus poderes. Por consequência, ele acaba sendo recrutado por um colégio de feiticeiros para caçar e comer os outros dedos da criatura, enfrentando ameaças sobrenaturais com seus novos colegas de classe e um professor misteriosamente poderoso.

Como disse na resenha do primeiro volume do mangá em novembro do ano passado (leia aqui), não há um só fio de originalidade em Jujutsu Kaisen, seja estética ou narrativamente. Absolutamente tudo lembra uma porção de mangás e animês que vieram antes e fizeram bastante sucesso. Naruto, em especial, parece ter servido de molde em uma porção de elementos.

Tem o protagonista órfão mais fanfarrão e de cabelo bagunçado (Yuji/Naruto) que carrega um imenso poder maligno selado em seu corpo (Sukuna/Kurama). Tem o colega soturno de cabelo preto mais jogado, aparentemente mais poderoso, inteligente e com um talento natural (Megumi Fushiguro/Sasuke). Tem a bad girl tsundere de cabelo chanel que gosta de bater nos outros (Nobara Kugisaki/Sakura). Tem até o mentor extremamente poderoso e requisitado que cobre alguma parte do rosto (Satoru Gojo/Kakashi).

Imagem: Sukuna em 'Jujutsu Kaisen'.
Reprodução: Crunchyroll

Mas se mesmo à época do mangá isso já não era um problema de verdade, agora, com o animê já disponível, tais semelhanças são de até menor importância. Pois Jujutsu é estupidamente bem executado em tudo o que se propõe. É uma obra audiovisual acima da média dentro de seu nicho. Daquelas que são tão divertidas que dão vontade de ver e rever em várias oportunidades.

O Park Seong-Hu exibe aqui uma mão forte na direção de cenas de ação, coisa que ele já havia mostrado dominar antes em The God Of High School, também no Mappa no ano passado. Há uma fluidez nos movimentos dos personagens em segmentos que são bem velozes, mas que sabem dar uma respirada para que a intensidade correta seja aplicada nos golpes. Rolam brincadeiras com os ângulos da câmera e com a movimentação dela nos quadros que trazem um friozinho da barriga ao assistir as batalhas.

A diferença é que Jujutsu, talvez pela maior quantidade de episódios, não para só na ação frenética, permitindo ao diretor mostrar mais nuances de seu talento para contar histórias. Aqui, há um roteiro mais esperto e bem melhor trabalhado, que dá tempo de desenvolvimento aos personagens, à trama e ao universo retratado. Um mesmo episódio pode flertar com gêneros como horror e comédia, caprichando na violência gráfica, mas aliviando em momentos de respiro que trazem mais humanidade aos personagens.

Gosto muito de como ocorre um equilíbrio entre arcos maiores e que se afundam mais no lore daquele mundo e outros episódios “monstro da semana” mais isolados, onde a diversão está compilada em pouco tempo de tela. É uma decisão narrativa bem ousada encerrar a temporada com um desses mais particulares, sendo que momentos antes estavam numa saga que tomou algumas semanas para ser contada e poderia levar tudo a um “ápice” caso fosse a que fechasse esse primeiro cour. E o tratamento mais cinematográfico que esses episódios finais ganharam é bem luxuoso, bonito de assistir.

Imagem: O grupo de Yuji.
Reprodução: Crunchyroll

Outra decisão narrativa interessante é quando, em dado o momento, o roteiro joga pro alto algumas regras mais convencionais e, logo de cara, já tira o protagonista da vista dos dois coadjuvantes principais que, em teoria, deveriam ser seus melhores amigos na trama em vez de desenvolver a interação deles por mais tempo. Nessa, o trio consegue desenvolver laços com outros personagens de dentro e fora da escola, o que abre ainda mais o leque de participantes daquele universo e lhes dá uma profundidade e “urgência” que faz com que temamos pelas vidas deles quando as coisas começam a ficar perigosas.

Gosto demais do Kento Nanami e da historinha dele de trabalhador médio; acho criativo demais os planos de fundo do trio formado por Panda (!!!), Maki e Toge (a ideia dele só falar ingredientes, deus do céu); o Aoi Toudou é do tipo de personagem que começa tendo tudo para ser detestável, mas imediatamente faz a volta e se torna maravilhoso; e mesmo os vários vilões e criaturas que aparecem ostentam um carisma muito alto.

Além disso, Jujutsu também é deslumbrante em seu visual. Os traços, as cores, a iluminação das cenas. Tem algo nele sobre os cenários serem muito bem trabalhados, como se fossem pinturas detalhadas, mais puxados pro “real”, dum jeito que os personagens ficam propositalmente cartunescos se movendo por eles. Cada episódio é de alto nível, sendo ainda outro grande trabalho gráfico recente do estúdio Mappa, junto de Dorohedoro, Banana Fish, da temporada final de Attack on Titan e a lista segue.

No fim, Jujutsu Kaisen é um animê muito melhor do que teoricamente precisaria ser. E que bom para nós que existam diretores e estúdios empenhados em tirar do lugar comum obras voltadas para o grande público! Temos que admitir que tudo nele como ideia é bem comum, habitual, reconhecível em seu nicho. Só que a execução é tão carinhosa, tão recheada de elementos deslumbrantes, tão apaixonada, que é impossível não se deixar levar. Em matéria de shounens de ação atuais, acho que vai demorar para lançarem algo melhor que isso.


Jujutsu Kaisen está disponível na Crunchyroll, inclusive com opção dublada em português. A plataforma fornece um acesso ao JBox.


O texto presente nessa resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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