Imagem: Seiya e Speed Racer em montagem da capa da Coluna Se Localizando edição 12.

A “tradição” brasileira de redublagens | Se Localizando #12

Redublar, relançar e requentar.

O Brasil sempre foi de múltiplas dublagens (e por vezes de múltiplas vozes). Com isso eu quero dizer que já faz décadas que é bem raro um filme ser dublado só uma vez aqui, por uma colossal gama de razões – às vezes o direito de determinada dublagem está atrelado a canal X ou licenciante Y, às vezes o novo distribuidor ou canal de exibição quer uma dublagem nova, às vezes a produtora passou a desgostar da antiga dublagem por um motivo ou outro e encomenda uma nova… e por aí vai.

Na verdade, é bem difícil acompanhar quantas dublagens determinado filme tem ou quais dubladores estavam no elenco – até bem recentemente, essas informações não eram divulgadas (e mesmo hoje, não são sempre divulgadas, apesar de ser previsto em lei). Existem grupos dedicados de fãs que tentam arquivar esses dados, mas nem eles conseguem ficar a par de tudo.

E por pior que isso fosse antes, se intensificou pra caramba após a invasão dos serviços de streaming. O motivo exato… eu sinceramente não sei; mas imagino que seja uma mistura de fatores, desde qualidade de áudio indesejável de dublagens pré-era digital, até a falta de vontade de negociar os direitos de dublagens antigas, sendo fazer uma nova mais simples e rápido.

E, naturalmente, animês também estão inclusos nisso. Nos últimos anos temos visto um número cada vez maior de animês mais antigos, que já tinham sido dublados, recebendo novas dublagens para streaming; alcançando o nível da incredulidade este ano, quando o previamente nunca dublado (fora o filme) Cowboy Bebop ganhou duas dublagens, uma para a Funimation, outra para a Netflix, com poucas semanas de diferença entre o lançamento de uma e outra.

Imagem: Spike em 'Bebop'.
Reprodução: Sunrise.

Mas estamos nos adiantando. Como muitos já devem saber (e estão prestes a me avisar nos comentários), redublagens de animê já aconteciam muito antes de streaming se tornar parte integral do nosso mundo. Não com tanta frequência quanto filmes – afinal, redublar 50 episódios de um desenho é muito mais trabalhoso que redublar 90 minutos de um filme – mas ainda assim, não eram incomuns.

Vamos começar com o exemplo mais antigo que eu consigo lembrar: o bom e velho Speed Racer, ou Mach GoGoGo, como é conhecido no Japão. Um dos primeiros animês a ser trazido para o Brasil e um queridinho da WarnerMedia, era de se esperar que ele fosse redublado algumas vezes. A primeira dublagem foi produzida pela Riosom, contando com Cleonir dos Santos no personagem-título, estreando em 1969 na Rede Globo e também passando na TV Tupi.

Algum tempo depois, alguns episódios foram lançados em VHS, e esses foram dublados na SC São Paulo, com Orlando Viggiani (o Ryu de Street Fighter II V) no papel do protagonista.

E por fim, uma terceira dublagem foi produzida na Sincrovídeo, com Peterson Adriano (Koenma em Yu Yu Hakusho, Puck em Re:ZERO) interpretando o piloto do Mach 5. Essa dublagem continua em circulação até hoje – se você pegar algum episódio desse clássico na TV ou esbarrar com o DVD, essa é a dublagem que estará nele.

Imagem: Speed Racer dando de ombros no animê.
Reprodução: Tatsunoko Productions.

Mas ainda não acabou! Um outro tipo de redublagem que também pode acontecer é a de episódios seletos de uma série, por razões de certos episódios estarem com áudio danificado, indesejável, ou indisponível por algum motivo.

E isso aconteceu com Speed Racer – para o lançamento em DVD, alguns episódios foram redublados no estúdio Gabia, e contaram com Wendel Bezerra no papel do corredor, que também fez a versão repaginada dele no remake As Novas Aventuras de Speed Racer (Shin Mach GoGoGo/Speed Racer X, não o americano New Adventures of Speed Racer – sim, é confuso), que passou por aqui no Cartoon Network.

Mas quando falamos de animês antigos, o caso de redublagem mais conhecido provavelmente é o de Os Cavaleiros do Zodíaco, visto todo o seu sucesso. Em seu lançamento original pela Manchete, em 1994, a série foi exibida com uma dublagem produzida pela extinta Gota Mágica. Cerca de uma década depois, ela recebeu uma nova dublagem para reexibição no Cartoon Network, em 2003.

Image: Os cavaleiros de bronze de Saint Seiya.
Divulgação: Toei Animation.

Diferentemente do que aconteceu com Speed Racer, a redublagem de Cavaleiros reuniu o maior número possível de dubladores da primeira dublagem, já tão queridos pelo público… mas também manifestou outro aspecto interessante de redublagem: uma coisa que eu chamo de “canonizar os erros”.

A primeira dublagem de Cavaleiros era falha e continha diversos erros de adaptação no texto; golpes com nomes errados, traduções estranhas de termos… a lista é longa. E via de regra, muitos deles foram corrigidos na redublagem; o Seiya nunca mais chamou seus punhos de “ken”, o cavaleiro de ouro Mu não é apresentado como sendo da constelação de Touro, dentre outras coisas mais.

Mas por outro lado, a nova dublagem não ousou mexer em… “erros” (talvez “peculiaridades” seja uma palavra melhor?) que já tinham caído nas graças do público. Como o Seiya exigindo que Pégaso lhe desse a sua força em certas cenas, certas alterações inexplicáveis de nome (como de “Miho” para “Mino”), ou a cavaleira Shaina (“Shina” – outro erro mantido) ocasionalmente chamando seu ataque “Garras do Trovão” de “Venha, Cobra”, por algum motivo.

Dá para levantar uma discussão em cima disso – é certo uma nova dublagem manter esse tipo de coisa? Porque essencialmente, apesar de algumas dessas coisas poderem ser explicadas como licença artística, outras são simplesmente erros, e erros não deveriam ser corrigidos? O que vocês acham?

Seguindo, outro caso de redublagem que eu acho fascinante é Evangelion. A série de TV já foi dublada três vezes – uma pela Mastersound, outra pela Álamo, e mais recentemente pela VoxMundi para a Netflix.

Imagem: Rei em Evangelion.
Reprodução: Gainax/Khara.

Alguns membros do elenco foram trocados em cada uma delas, enquanto outros, como os três pilotos Shinji, Asuka e Rei, ficaram fixos. E através das dublagens, fica bem evidente como as vozes dos dubladores mudaram através desses 20 anos.

E claro, a série também contou com certas peculiaridades de adaptação. A mais chamativa para mim é como os inimigos da série, os Anjos, eram chamados de “Angels” na primeira dublagem (note que na versão japonesa eles são chamados pelo nome japonês dessas figuras bíblicas: tenshi).

Outra bem chamativa é como a primeira versão pronunciava o nome da personagem Asuka rimando com “açúcar”, enquanto que as demais dublagens a aproximaram à pronúncia original: “Á-ssuka”.

Dito isso, Evangelion também serve para mostrar que redublagens não são imunes a cometer novos erros. Na segunda dublagem do primeiro episódio da série, as famosas palavras do Shinji, “não posso fugir”, foram traduzidas como o oposto: “tenho que fugir”. Ops.

E também tem o caso de duas dublagens feitas sobre duas versões internacionais de um mesmo animê. A primeira que me vêm à mente foi o estranho caso de Robotech.

Robotech é um compilado americano de três animês: Super Dimension Fortress Macross, Super Dimension Cavalry Southern Cross e Genesis Climber MOSPEADA. Como típico dos americanos, essa versão inclui vários cortes, nomes trocados, e enredo modificado para combinar essas três séries.

Imagem: Protagonista de 'Macross'.
Reprodução: Tatsunoko Productions/BIGWEST/Harmony Gold.

Robotech foi exibido dublado aqui em 1990, pela Globo… e dois anos depois, Macross, desassociado de Robotech, passou na Record, sob o título “Guerra das Galáxias” (não confundir com Batalha dos Planetas!). E para deixar a situação ainda mais surreal, ambos foram dublados na Herbert Richers, mas com elencos diferentes.

Bom, nem preciso dizer que as duas dublagens têm roteiros e terminologias bem diferentes, como definidas por suas “versões base”.

Porém não é só isso: antes de ir para a TV, Robotech teve um lançamento em VHS em 1987, com um elenco de dublagem paulista. E ainda teve o filme Macross: A Batalha Final, com mais dois outros elencos (um da fita que também saiu no fim da década de 80 e outro da exibição pelo Locomotion no começo dos anos 2000).

Mas o exemplo mais famoso desse “caso Robotech”, naturalmente, é One Piece: originalmente exibido por aqui através da velha versão americana editada, dublado pela DPN, o animê ganhou uma segunda chance na Netflix, agora dublado na Unidub em cima da versão original.

A adaptação da DPN naturalmente tinha o roteiro bem afetado pela versão americana, mas o trabalho dela sobre a terminologia da série foi interessante. Basicamente, foi uma tentativa de adotar as escolhas de tradução da (então-publicadora do mangá por aqui) Conrad na dublagem, um “malabarismo” das decisões da versão americana e as da editora.

Imagem: Luffy, tranquilão, feliz demais.
Reprodução: Toei Animation

Por exemplo, o protagonista ficou com o nome “Ruffy”, que era adotado pela Conrad, em oposição ao mais universalmente utilizado “Luffy”. As “Frutas do Diabo” ficaram com esse nome, em oposição ao termo mais leve que a dublagem americana adotava (“Cursed Fruit”, ou “Frutas Amaldiçoadas”), e vários golpes foram revertidos ou a seus nomes originais, ou a adaptações de seus nomes originais, como o “Gomu Gomu Pistola” do Luffy (esse foi bem inconsistente, diga-se de passagem – em alguns episódios ele era chamado de “Gomu Gomu Explosão”, provavelmente derivado do nome que a dublagem americana usava, “Gum Gum Blast”).

Já a nova dublagem optou por manter o maior número possível de termos em japonês, baseada no fato da maioria dos fãs pré-existentes de One Piece no Brasil fazerem o mesmo. “Akuma no Mi” ao invés de “Fruta do Diabo”, “Gomu Gomu no Pistol” ao invés de “Gomu Gomu Pistola”, etc. O elenco foi todo trocado (com aval da Toei) após novos testes… com algumas exceções aqui e ali, como o Sanji.

Como já dá deve ter dado para notar pela coluna, eu adoro comparar múltiplas adaptações de um mesmo produto; é divertido ver como cada equipe aborda o texto do seu próprio modo, por bem ou por mal… por mais frustrante que possa ser para os fãs das primeiras dublagens!

Bom, quero ouvir de vocês: que outras redublagens de animê vocês conhecem? Qual vocês gostaram ou desgostaram? Acham que eu não sei do que estou falando e que “Venha, Cobra” é um nome muito legal para um ataque? Soltem aí nos comentários e até a próxima!


O texto presente nesta coluna é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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