Imagem: Tanjiro em ilustração de capa de DVD japonês, no enquadramento da coluna café e matchá.

‘Demon Slayer’ é o modelo perfeito de sucesso para a indústria | Café & Matchá #19

Não há nada melhor que explorar novos talentos com contratos meia-bomba que não vão dar o retorno adequado para seus autores.

Demon Slayer. Ah, Demon Slayer, uma máquina de dar dinheiro para empresários poderem sonegar. Existe uma coisa que me fascina em Kimetsu no Yaiba (e não é o fato de eu não entender como isso virou uma fonte jorrando dinheiro para todos os lados): a série estourou mesmo no Japão após sua exibição na TV.

Muitos apontam o episódio 19 como o grande ponto de virada. Eu discordo. Quer dizer, mais ou menos. O episódio 19 atraiu massas de fãs estrangeiros à série – talvez também círculos de otakus japoneses. Mas tudo indica mesmo que a série se expandiu após a exibição acabar (os volumes esgotaram pela primeira vez depois da transmissão se encerrar) e ganhar ainda mais fôlego na pandemia (esse aqui provavelmente é mérito do time de marketing da Aniplex).

Imagem: Prévia do fanbook japonês.
Divulgação: Shueisha.

E isso é muito interessante: a série vira um estouro depois até mesmo de ter seu final próximo decretado. Há quem diga que o fato dela estar já acabando foi um incentivo para muitos lerem (afinal, ninguém teve que esperar mais de 20 anos para ver o fim!). Talvez seja verdade. Os consumidores ganham com isso.

Ganham? Talvez. Não sei. Mas existe alguém que realmente ganha: as empresas que detêm direitos sobre a marca, a Shueisha e a Aniplex (esta última, no caso do animê), pelo menos.

E quem não ganha tanto assim foi quem escreveu: tudo indica que a parte que Koyoharu Gotoge embolsa disso tudo é bem menor do que poderia se esperar. Por exemplo, ela não deve ter ganho um centavo com os ingressos do filme, a maior bilheteria do Japão.

Claro, com mais 150 milhões de cópias em circulação, alguma coisa ela ganha (e não é pouca coisa não). Mas a dinâmica dos ganhos por royalties é um pouco diferente do que muitos podem pensar (pois todo mundo deveria saber que leis de direitos autorais hoje praticamente só servem para enriquecer quem já é rico, e não para proteger autores).

Há quem diga que faz sentido pois foram esses corajosos empresários que se dedicaram e gastaram dinheiro investindo nessa série. Eu já acho isso uma vontade muito grande de defender rico. Ninguém se dedica mais a uma série que a pessoa que provavelmente não dormiu por noites para entregar manuscritos dentro do prazo (talvez animadores igualmente mal pagos que trabalham por mais 8 horas seguidas por dias a fio e nem direitos sobre as séries têm).

E é exatamente por isso que eu acho Demon Slayer o símbolo de um fenômeno interessante: o das séries não tão longas feitas por novos talentos. Ano passado, a Shueisha fez um “reality show”, o Million Tag, no qual o vencedor ganhou uma quantidade em dinheiro, a chance de seriar sua série na Shonen Jump e uma animação garantida pela Netflix.

E é absurdamente fascinante como esse modelo é perfeito para as grandes editoras. Ao invés de gastarem dinheiro dando um salário para mangakás “da casa” por anos enquanto tentam ver se algum emplaca um hit longevo mas capaz de bater recordes, transformam tudo num show com mangakás iniciantes desesperados por construir nome e carreira.

Dão a eles um prêmio em dinheiro que parece atraente, e chances de exposição em redes mundiais. Se der certo, conseguiram um hit para explorar comercialmente sem pagar por anos a fio mais um centavo por royalties devido aos contratos que devem ser uma droga (e sem a necessidade de estender ou renovar esse contrato!). Se der errado, provavelmente as vendas de espaços publicitários já cobriram parte do gasto.

Claro, esse é um caso de exceção, ao menos hoje – quer dizer, concursos para novos talentos não são de hoje, e nem são ruins em si, mas eu duvido que o contrato com o vencedor realmente seja vantajoso para ele se a série virar um hit implacável na maior vitrine de mangás do Japão.

E esse tipo de iniciativa, “estrondosa” mas barata, vindo de quem claramente tem meios para bancar projetos melhores para todos pelo jeito tende a aumentar (como já vem aumentando).

A mudança da Jump de séries de décadas de seriação para séries mais curtas faz sentido, olhando por esse viés. O estouro de mangás curto, principalmente de mangakás jovens (com contratos piores por serem “apostas” da editora), dá mais retorno. O investimento é mais baixo e o lucro, mais alto. E pouco dele vai pra mão do contratado, que ainda não tem muito espaço para negociar termos melhores.

imagem: foto da coleção de mangás d eOne Piece pela Conrad, destacando o volume 70
O volume 70, último publicado pela Conrad e equivalente à 2ª metade do volume 35 japonês. | Foto: Reprodução/Shopee.

O consumidor também fica mais feliz, pois não é todo mundo que quer passar anos lendo a mesma história, como ocorre com One Piece. E não é todo mundo que sustenta uma história por anos como o Eiichiro Oda faz com One Piece.

Não quero dizer que devemos ter séries longas de anos de duração. Não acho isso. Acho inclusive que a maioria das séries vai se desgastar depois de uns 5 anos. É difícil manter a batata quente o tempo todo. Mas parece que a indústria caminha para um cenário de séries curtas de autores mais novos porque elas são realmente mais vantajosas desse ponto de vista de negócios.

Não é só no Japão. A gente vê o sucateamento das classes trabalhadoras em todo lugar. Ele vem disfarçado de termos chiques e com ar positivo como “flexibilização dos contratos”, “autonomia no trabalho”, ou coisas assim, que no fundo significam “você que lute”.

Mas a verdade é que segue sendo absurdo que quem criou a história que deu base para a maior bilheteria do Japão provavelmente não ganhou um centavo com esses ingressos. E devemos seguir assim nos próximos anos.

Demon Slayer, além de um sucesso sem precedentes, também exemplifica um modelo de trabalho que é perfeito para as grandes empresas, mas parece bem menos vantajoso para os autores.

Porém, ao invés de discutir isso, os autores pelo jeito preferem discutir pirataria, que é um tema com muito mais nuances – não que a gente não deva discutir pirataria (devemos!), mas se as leis de direitos autorais foram “co-optadas” pelo grande empresariado, as discussões também giram em torno dos interesses dos grandes.

É por isso que discussões sobre pirataria tendem a ser rasteiras e simplistas: porque atendem a uma agenda específica de um pequeno grupo, que usualmente nem é quem de fato coloca a mão na massa.

Enfim, é por isso tudo que toda editora queria ter um Demon Slayer para chamar de seu. Ou pelo menos é o que eu acho.


O texto presente nesta coluna é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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