Otaku Neoclássico #21: Paprika

Satoshi Kon. Precisa dizer mais?

Surpresos? Acho que não.

Satoshi Kon é um nome muito conhecido e respeitado na indústria de animes. Com uma carreira curta e intensa, ele morreu em 2010, aos 46 anos, com apenas cinco filmes (Perfect Blue, Millenium Actress, Tokyo Godfathers, Paprika e Yume Miru Kikai, que ainda será lançado) e um TV anime (Paranoia Agent) produzidos. Dentre todos os seus filmes, é muito difícil destacar um como O melhor, entretanto, o mais aclamado de seus trabalhos é, sem dúvidas, aquele de que falarei dessa vez e o último terminado por ele em vida: Paprika.

Paprika é baseado no romance homônimo de Yasutaka Tsutsui (que também escreveu o romance que serviu de base para Toki o Kakeru no Shoujo) e conta a história de Atsuko Chiba, uma cientista envolvida na pesquisa de máquinas capazes de adentrar no sonho de pacientes, os DC Mini, permitindo tratamento de problemas psicológicos a partir deles.

A tecnologia, porém, é roubada e Atsuko se vê investigando a situação junto ao policial perturbado Toshimi Konakawa e o criador do projeto, o gênio com síndrome de Peter Pan, Chosaku Tokita. E, enquanto o caso avança, a barreira entre sonho e realidade vai se diluindo lentamente ao mesmo tempo em que um pesadelo ameaça levar todo o planeta à loucura.

Máquinas de sonhos? Penetrar na mente? Soa familiar? Sim, Inception (conhecido no Brasil como A Origem), do respeitado Christopher Nolan foi influenciado por Paprika, algo que o próprio Nolan admitiu. Esse, na realidade, é um dos animes mais bem sucedidos e respeitados no Ocidente, sendo comparado ao épico Sen to Chihiro no Kamikakushi (também conhecido como A Viagem de Chihiro). E aqueles que entendem as relações complicadas entre Ocidente e Oriente entenderão quanto isto é grande. O fato é que não dá para discutir o reconhecimento internacional de Paprika. E a maior parte disso é a graças à direção.

Kon era o tipo de diretor cujo estilo de trabalho era visível em cada uma de suas obras. É interessante como, assim como na obra de David Fincher e Steven Spielberg, há também alguns padrões de temas na filmografia dele: suas protagonistas são sempre mulheres em crise, tendo de lidar com situações extremas nos momentos mais inapropriados de suas vidas, o sonho e a realidade se misturando e o amor ao cinema.

Aqui essa paixão é materializada na figura do sonho de um homem em se tornar diretor. Os cortes inesperados de Millenium Actress e imagética absurda de Paranoia Agent estão aqui muito bem representados. É interessante como tudo que o autor fez em seus filmes anteriores aparece em Paprika, sua primeira adaptação desde Perfect Blue (embora esse tenha sido MUITO modificado de uma mídia para outra).

Talvez seja apenas um exagero meu, mas é como se tudo que Kon fez o levasse em direção a Paprika, como se, com esse filme, ele estivesse tentando alcançar seu ideal de cinema.

Mas agora chega de falar do homem por trás da obra e falemos dela, Aye?

Paprika foi animado pelo MadHouse, velho conhecido do Sr. Kon, e tenho certeza de que isso diz muito para vocês. E se não diz, vou esclarecer. A animação é fenomenal, assim como os efeitos especiais (sim, usam-se efeitos especiais em animação). As cenas de sonhos são Fantásticas e os visuais no geral estão entre os melhores que já vi. E olhe que já vi muita coisa bonita (oi, Ufotable).

O character design pode parecer cartunesco demais para alguns, porém esse é outro traço marcante de Kon e, talvez, uma das razões de seu sucesso no Ocidente. Apesar de ser claramente um anime, o visual não é fofo nem conservador. Há mesmo algo de caricaturesco nos visuais que acaba se tornado inerente ao próprio caráter da animação, o que me faz pensar como seria a obra se, como deveria ter sido originalmente, ela fosse um Live Action.

Normalmente falaria da direção em algum momento. Mas não vou. É Satoshi Kon, não tem mais nada que eu possa dizer. Para o que não conhecem nada sobre o autor, ouçam o JWave Cast sobre Perfect Blue e entenderão do que falo. A única nota que vale ser colocada é que, como tudo criado pelo autor, Paprika não faz sentido algum se o espectador não fizer o esforço de entendê-lo e, portanto, se quer algo simplesmente para relaxar ou para se divertir sem pretensão, esqueça, pois, provavelmente, você irá detestar Paprika ou, na melhor das hipóteses, irá gostar das belas cenas de ação (a perseguição inicial é minha favorita, só para constar).

Paprika foi lançado em grande parte da Ásia e foi exibido em diversos festivais pelo mundo, ganhou prêmios e, mais impressionantemente que tudo isso, saiu em DVD E Blu-Ray no Brasil, além de estar disponível no serviço Netflix! Não saiu no cinema, mas, bem, é muito raro que animes saiam no cinema por aqui mesmo (embora o filme tenha sido exibido na Liberdade durante um festival em comemoração a Satoshi Kon ao qual eu não pude ir :[ ).

Depois de tudo isso tenho certeza de que estão esperando eu dizer que aconselho que assistam Paprika, não é? Mas não vou fazer isso. Como eu disse, essa é uma daquelas animações complicadas e malucas demais para grande parte do público. Digo que deem uma chance, porém não garanto que não irão se arrepender.

A aposta é de vocês.

E mais uma vez tudo saiu de acordo com os meus planos…

Título: Paprika
Estúdio: MadHouse
Direção: Satoshi Kon
Duração: 90m

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