Otaku Neoclássico #22: Death Note

Polêmica! Mamilos! Polêmica!

Quando falei de Suzumiya Haruhi no Shoushitsu, comentei em como é difícil para qualquer pessoa dar uma opinião sobre a franquia devido aos fãs xiitas que ela tem. Porém, se existem animes que conseguem ter mais fãs fervorosos que a famosa série da Deusa Colegial, esses são Full Metal Alchemist e o nosso assunto de hoje, Death Note.

Eu normalmente colocaria uma sinopse da série nesse parágrafo, mas, cá entre nós, alguém aqui não conhece Death Note?

O anime foi produzido pelo nosso velho conhecido, o MadHouse, e, sendo honesto, essa foi uma das séries mais bem animadas que o estúdio fez durante um bom tempo. É incrível notar a quantidade de frames colocados numa cena que é, basicamente, o protagonista comendo batata frita enquanto escreve e tem um monólogo mental.

Aliás, a série é cheia desses momentos em que a dramaticidade chega a níveis absurdos. Na já referida cena, a quantidade de movimentos exagerados que Light faz apenas para escrever nomes em seu caderno (mesmo levando em conta o que é tal caderno) é de colocar inveja na transformação de muita Garota Mágica por aí.

Chega a ser cômico como situações e ações extremamente simples se transformam em verdadeiros orgasmos emocionais na série. Só não são mais espantosos que os monólogos gigantescos que Light faz sobre as coisas mais simples como o resultado de uma partida de tênis. Mas disso falo depois.

A culpa (?) desse sentimento exacerbado é de um tal de Tetsuro Araki, o responsável pela direção da série e que viria, anos depois, a dirigir o Burro-Mas-Divertido Highschool of The Dead e o amplamente criticado Guilty Crown (embora a direção seja menos atacada do que o roteiro, nesse caso). Confesso que, apesar de falar desses momentos exagerados da série, o trabalho de direção de Araki é realmente competente. Algumas sequências são extremamente impactantes e o anime tem um ritmo bom na maioria do tempo. Na maioria do tempo. Mas falemos disso mais tarde, aye?

Como um todo, Death Note sucede em ser um thriller policial sobrenatural. Toda a investigação do caso Kira se desenrola de uma maneira muito inteligente e o jogo de gato e rato entre Light e L sustenta bem a trama. A introdução, mais tarde, de outros personagens interessantes à série só melhora isso.

Tal dramaticidade em parte se deve ao ótimo trabalho dos seyuus (como nosso caros colegas japoneses chama os dubladores). O elenco estelar conta com nomes do porte de Mamoru Miyano (o Okarin, de Steins;Gate), Kappei Yamaguchi (o Kuma/Teddie de Persona 4), a polêmica Aya Hirano (a Haruhi de Suzumiya Haruhi e a Konata de Lucky Star), Maaya Sakamoto (a Ryougi de Kara no Kyoukai e até a Rose de Doctor Who!!!), Noriko Hidaka (a Akane de Ranma ½) e etc, todos em ótimas atuações. Death Note seria, sem dúvidas, um dos melhores thrillers que já assisti (e isso considerando filmes, seriados e afins) se não fosse por um problema grave…

Existem dois tipos de obras inteligentes: as que usam de metáforas e imagens para passar ideias complexas e as que jogam as ideias na sua cara para te impressionar. Death Note se encaixa no segundo caso.

Lembram que eu falei dos monólogos da série? Pois é. Eles são o maior problema de Death Note. Vejam, sendo uma história de detetives, é natural que acompanhar o raciocínio das personagens é extremamente importante para se compreender o que está acontecendo, principalmente quando tais personagens são alegadamente gênios.

Esse caráter expositivo do gênero policial existe desde que Poe escreveu Assassinatos da Rua Morgue (um ótimo conto, se me permitem dizer, assim como a obra de Poe como um todo) e foi popularizado pelo Sherlock Holmes de Doyle e pelo Poirot de Agatha Christie, porém, em todos esses casos, os autores sabiam o limite do que deveriam expor sem arriscar se tornarem maçantes e, geralmente, só iam para a exposição após dar ao leitor a chance de descobrir as respostas por ele mesmo. Infelizmente, em Death Note não é assim que funciona.

A série apresentada é inteligente, isso é inegável, mas para provar que o é, usa de diálogos mentais que fariam Duna parecer dinâmico. Isso em parte se deve ao fato de que Death Note é um Shonen e, como tal, tem que ser compreensível por um público relativamente jovem e, teoricamente, com pouca experiência com histórias policiais. Naturalmente isso era esperado, mas o problema é que tais monólogos são absurdamente longos.

Muitas pessoas que assistem Kara no Kyoukai reclamam de como os filmes dão aulas de ocultismo sempre que têm que falar algo (se você está lendo isso, sim, estou falando de você), entretanto, enquanto no caso esses diálogos apresentavam conceitos próprios do universo, sendo, portanto, necessários, aqui eles simplesmente servem para tentar impressionar o espectador e fazê-lo achar que Light realmente é um gênio. É como miojo: vem pré-cozido, embalado e com tempero pronto para que o espectador precise apenas colocar água quente e achar que é um grande cozinheiro.

Chega a ser cômico o desespero com que Death Note tenta impressionar. É como aquele aluno que fica metade da aula discutindo com o professor só para que os outros pensem que ele é um gênio. É chato, é maçante, é deselegante, e, acima de tudo, viola a regra sagrada conhecida no meio dos roteiristas como “Não fale, mostre!”. Naturalmente, isso não incomoda o público alvo da série, entretanto, para alguém com experiência em histórias de detetives isso se torna extremamente irritante. E o fato de que todos com exceção dos gênios prodígios são completos idiotas não ajuda nem um pouco. É sério, que diabos de polícia internacional se deixa ser pega tão fácil?

Outro ponto negativo da série é, no fim, abandonar toda a ambiguidade de morais que vinha criando até então e optar por um final kármico que ignora tudo que estava sendo dito até então. A necessidade de ser politicamente correto, no fim, acaba matando a série. Ainda assim, o fato de ter despertado um debate interessante sobre o que é a justiça já é o bastante para tornar Death Note um dos animes mais admiráveis da atualidade. Mas não é perfeito como muitos costumam dizer. Nada é. Nada menos Plan 9 From Outer Space.

Death Note é um sucesso incontestável em todo o mundo. Ganhou três adaptações para Live-Action (com a Erika Toda no papel de Misa, só para constar), algumas Light Novels, uma das quais foi lançada no Brasil assim como o mangá e o anime (!!!) exibido no não-tão-saudoso Animax  e disponível no Netflix, uma centena de figuras, Drama CDs e todas as bugigangas de anime que sempre lançam. Ah, e a série se tornou popular o bastante para os puritanos dos EUA tentarem baní-la das escolas por estimular os alunos a matarem criminosos. Vê se pode, ensinar alunos essas coisas feias?

Enfim, não vou dizer para assistirem a série, afinal tenho certeza de que a maioria (se não todos) aqui já o fizeram. E se alguém está lendo isso e não assistiu Death Note, vá assistir. Garanto que você pelo menos vai rir bastante das poses do Light. Aproveitem e leiam Sherlock Holmes e descubram o que é uma história de detetives que sobrevive sem te chamar de idiota.

Bem, até daqui a duas semanas, e espero que até lá nenhum de nós seja morto por um lanceiro de colã azul.

Título: Death  Note
Estúdio: MadHouse
Direção: Tetsuro Araki
Número de Episódios: 37

P.S: Se eu não enviar o próximo texto, é porque os fanboys me mataram.

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